quinta-feira, 20 de maio de 2010

Mais de mim em Clarice

Hoje é sábado e é feito do mais puro ar, apenas ar. Falo-te como exercício profundo de mim . O que quero agora escrever? Quero alguma coisa tranqüila e sem modas. Alguma coisa como a lembrança de um monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas quero de passagem ter realmente tocado no monumento. Vou parar porque é sábado.

Continua sábado.

Aquilo que ainda vai ser depois - é agora. Agora é o domínio de agora. E enquanto dura a improvisão Eu nasço.

E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu " e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero - eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei.Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. e você é você. É vasto, vai durar.



O que te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua.

Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.

O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.



(Extraído do último capítulo do livro "Água Viva" de Clarice Lispector)

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